terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Violões Que Choram





Ah! plangentes violões dormentes, mornos,
Soluços ao luar, choros ao vento...
Tristes perfis, os mais vagos contornos,
Bocas murmurejantes de lamento.
Noites de além, remotas, que eu recordo,
Noites da solidão, noites remotas
Que nos azuis da Fantasia bordo,
Vou constelando de visões ignotas.
Sutis palpitações a luz da lua,
Anseio dos momentos mais saudosos,
Quando lá choram na deserta rua
As cordas vivas dos violões chorosos.
Quando os sons dos violões vão soluçando,
Quando os sons dos violões nas cordas gemem,
E vão dilacerando e deliciando,
Rasgando as almas que nas sombras tremem.
Harmonias que pungem, que laceram,
Dedos Nervosos e ágeis que percorrem
Cordas e um mundo de dolências geram,
Gemidos, prantos, que no espaço morrem...
E sons soturnos, suspiradas magoas,
Mágoas amargas e melancolias,
No sussurro monótono das águas,
Noturnamente, entre ramagens frias.
Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.
Tudo nas cordas dos violões ecoa
E vibra e se contorce no ar, convulso...
Tudo na noite, tudo clama e voa
Sob a febril agitação de um pulso.
Que esses violões nevoentos e tristonhos
São ilhas de degredo atroz, funéreo,
Para onde vão, fatigadas do sonho
Almas que se abismaram no mistério.
Sons perdidos, nostálgicos, secretos,
Finas, diluídas, vaporosas brumas,
Longo desolamento dos inquietos
Navios a vagar a flor de espumas.
Oh! languidez, languidez infinita,
Nebulosas de sons e de queixumes,
Vibrado coração de ânsia esquisita
E de gritos felinos de ciúmes!
Que encantos acres nos vadios rotos
Quando em toscos violões, por lentas horas,
Vibram, com a graça virgem dos garotos,
Um concerto de lágrimas sonoras!
Quando uma voz, em trêmolos, incerta,
Palpitando no espaço, ondula, ondeia,
E o canto sobe para a flor deserta
Soturna e singular da lua cheia.
Quando as estrelas mágicas florescem,
E no silêncio astral da Imensidade
Por lagos encantados adormecem
As pálidas ninféias da Saudade!
Como me embala toda essa pungência,
Essas lacerações como me embalam,
Como abrem asas brancas de clemência
As harmonias dos Violões que falam!
Que graça ideal, amargamente triste,
Nos lânguidos bordões plangendo passa...
Quanta melancolia de anjo existe
Nas visões melodiosas dessa graça.
Que céu, que inferno, que profundo inferno,
Que ouros, que azuis, que lágrimas, que risos,
Quanto magoado sentimento eterno
Nesses ritmos trêmulos e indecisos...
Que anelos sexuais de monjas belas
Nas ciliciadas carnes tentadoras,
Vagando no recôndito das celas,
Por entre as ânsias dilaceradoras...
Quanta plebéia castidade obscura
Vegetando e morrendo sobre a lama,
Proliferando sobre a lama impura,
Como em perpétuos turbilhões de chama.
Que procissão sinistra de caveiras,
De espectros, pelas sombras mortas, mudas.
Que montanhas de dor, que cordilheiras
De agonias aspérrimas e agudas.
Véus neblinosos, longos véus de viúvas
Enclausuradas nos ferais desterros
Errando aos sóis, aos vendavais e às chuvas,
Sob abóbadas lúgubres de enterros;
Velhinhas quedas e velhinhos quedos
Cegas, cegos, velhinhas e velhinhos
Sepulcros vivos de senis segredos,
Eternamente a caminhar sozinhos;
E na expressão de quem se vai sorrindo,
Com as mãos bem juntas e com os pés bem juntos
E um lenço preto o queixo comprimindo,
Passam todos os lívidos defuntos...
E como que há histéricos espasmos
na mão que esses violões agita, largos...
E o som sombrio é feito de sarcasmos
E de Sonambulismos e letargos.
Fantasmas de galés de anos profundos
Na prisão celular atormentados,
Sentindo nos violões os velhos mundos
Da lembrança fiel de áureos passados;
Meigos perfis de tísicos dolentes
Que eu vi dentre os vilões errar gemendo,
Prostituídos de outrora, nas serpentes
Dos vícios infernais desfalecendo;
Tipos intonsos, esgrouviados, tortos,
Das luas tardas sob o beijo níveo,
Para os enterros dos seus sonhos mortos
Nas queixas dos violões buscando alivio;
Corpos frágeis, quebrados, doloridos,
Frouxos, dormentes, adormidos, langues
Na degenerescência dos vencidos
De toda a geração, todos os sangues;
Marinheiros que o mar tornou mais fortes,
Como que feitos de um poder extremo
Para vencer a convulsão das mortes,
Dos temporais o temporal supremo;
Veteranos de todas as campanhas,
Enrugados por fundas cicatrizes,
Procuram nos violões horas estranhas,
Vagos aromas, cândidos, felizes.
Ébrios antigos, vagabundos velhos,
Torvos despojos da miséria humana,
Têm nos violões secretos Evangelhos,
Toda a Bíblia fatal da dor insana.
Enxovalhados, tábidos palhaços
De carapuças, máscaras e gestos
Lentos e lassos, lúbricos, devassos,
Lembrando a florescência dos incestos;
Todas as ironias suspirantes
Que ondulam no ridículo das vidas,
Caricaturas tétricas e errantes
Dos malditos, dos réus, dos suicidas;
Toda essa labiríntica nevrose
Das virgens nos românticos enleios;
Os ocasos do Amor, toda a clorose
Que ocultamente lhes lacera os seios;
Toda a mórbida música plebéia
De requebros de faunos e ondas lascivas;
A langue, mole e morna melopéia
Das valsas alanceadas, convulsivas;
Tudo isso, num grotesco desconforme,
Em ais de dor, em contorsões de açoites,
Revive nos violões, acorda e dorme
Através do luar das meias noites!


Cruz e Sousa



segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Versos íntimos

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro.
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Recife e Olinda

O emprego do pronome na terceira pessoa se deve porque o presente texto é a minha parte de um trabalho, em dupla com Clarisse Pereira, a ser apresentado a disciplina de Pré-história II.

Dado a proximidade e intimidade, escolhemos o bairro do Recife Antigo e o sítio histórico de Olinda para preencher o requerido exercício. Tendo seu lugar muito bem marcado na história de nosso país, essas duas cidades se apresentam como irmãs, sendo Olinda a mais velha, e Recife, a mais nova. Embora se trate de um texto saudosista que tem por objetivo enternecê-las, concordamos com Gilberto Freyre quando da citação de uns versos do poeta Manuel Bandeira "duas mulheres numa: tinha o rosto gordo de frente, magro de perfil". Ora, Gilberto Freyre dirá que "Olinda é menor mas é a que insiste em ser olhada sempre de frente, como se fôsse a principal. O Recife é a maior [...] prefere ser olhada de lado. Oblìquamente [...]" (FREYRE, 1967, p. 51) (Neste sentido, veja-se foto nº 16)
Produtiva capitania que inundava o comércio transatlântico com o açúcar de seus engenhos, provenientes do interior, Pernambuco só viria conhecer o declínio econômico quando da descoberta de ouro na região central do Brasil, por volta de fins do século XVIII e início do XIX. Fundada pelo donatário da capitania de Pernambuco, Duarte Coelho, Olinda, até a invasão holandesa em 1630, foi sede do luxo e pompa dos senhores de engenho, que lá esbanjavam e refletiam o bom andamento dos negócios da produção açucareira.
Inicialmente pequeno povoado de pescadores, marinheiros e mercadores, o Recife se limitava à zona portuária, hoje Recife Antigo, território de Olinda até a Carta Régia de 19 de novembro de 1709, consequência da Guerra dos Mascates. Naturalmente beneficiada pelos arrecifes - que deriva do árabe arraçif, que significa calçada, caminho pavimentado, dique, paredão, cais etc. - "o Recife cresceria a partir das suas atividades mercantis, o seu porto lhe garantiria sua ligação com o vasto mundo, porta de saída da produção açucareira e de entrada de tantas outras mercadorias". (REZENDE, 2010, p. 25) Tendo passado por um significativo processo de urbanização quando da administração do alemão João Maurício de Nassau-Siegen, o Recife já alargara seus territórios para a Ilha de Antônio Vaz (hoje, Ilha de Santo Antônio). Lá foi erguida a Cidade Maurícia, sede do palácio de Friburgo, também conhecido como Palácio das Torres, projetado pelo irmão do pintor Frans Post, Pieter Post, a pedido de Nassau.
Neste sentido, as duas cidades são importantes sítios arqueológicos, pois as casas, as praças, os sobrados, os fortes e as igrejas assinalam o passado colonial da história de Pernambuco e o contexto socioeconômico no qual foram construídos. Esses conjuntos de edificações são cultura material a serem estudados, são vestígios da atividade humana, da experiência adquirida e aplicada, das adversidades superadas, de apropriação e de inventividade. O espaço das duas cidades se apresenta “como uma unidade estática, um conjunto de objetos e estruturas [...] um fenômeno do presente que contém no entanto o produto de atividades dinâmicas realizadas no passado”. (NEVES, 1995, p. 173)
Nossa visita a Olinda foi maravilhosa. Principalmente para João Paulo que nunca havia feito um tour pelo sítio histórico. Primeiro conhecemos o sítio a céu aberto em frente ao convento de São Francisco. Nele pudemos ver o baixo relevo, a antiga cruz, uma ruína do que parece ser um muro e as camadas estratigráficas expostas indicando que ali houvera escavações arqueológicas.  (fotos de 1 a 15) Sentimos falta de qualquer tipo de sinalizações e placas informativas que nos dissessem o que ali, provavelmente, foi encontrado e qual a datação tanto do sítio e seus vestígios, quanto das próprias ruínas expostas. Fora a placa do convento e do nome da rua, a única informação visível foi obtida com uma placa sinalizadora da estação do trenzinho do Mirabilândia, presa a um poste. Os cidadãos nos ajudaram sobremodo, pois não havia qualquer tipo de mapa que indicasse nossa localização e a dimensão de Olinda. Localizado nessa rua estreita, muito provavelmente devido à escavação, esse Convento estava fechado, a não ser por uma única janela, pela qual fotografamos o seu interior.
Continuando a subida, deparamo-nos com o Mosteiro de São Bento, cuja rua adjacente sinalizava que se tratava do ponto mais alto do sítio. Local aconchegante e de bela paisagem, tiramos inúmeras fotos sob o sol radiante que fazia e aos frescos ventos que nos chegavam. Ao longe se podia ver a cidade do Recife, seu porto, seus prédios, bem como o istmo que a ligava a sua irmã mais velha, Olinda. Imaginávamos o marco zero e sequer enxergávamos a Torre de Cristal, do artista plástica Francisco Brennand. No alto do Mosteiro também encontramos com artesãos/comerciantes com sua arte de talhar as coloridas fachadas olindenses em cascas da cajazeira. Eles também nos informaram que no Mosteiro as atividades eclesiásticas estavam na ativa. Seguimos nosso caminho, agora rumo a Rua Padre Coutinho, onde nos disseram haver ali almoço comercial.
Chegando ao Alto da Sé encontramos a tradicional feirinha de artesanato e lembretes, bem como as famosas tapioqueiras e o mercado de artesanato, que fica ao lado do Preto Velho. Essa parte do sítio dispunha de inúmeros guias que, em sua maioria (pelo que observação e conversamos), são moradores da própria cidade. Do prédio observatório tivemos uma linda paisagem do sítio e do Recife, além de gratuito o visitante pode descer pelo interior do prédio, desfrutando de uma exposição – que tudo indica ser permanente – sobre os elementos culturais característicos do carnaval de Olinda. Na famosa Igreja da Sé, túmulo do ex-arcebispo de Olinda e Recife, Dom Hélder Câmara, pode-se ver as colunas originais da construção da Igreja, datadas do século XVI.
Trata-se de um sítio histórico e arqueológico de grande potencial turístico, ainda não explorado em sua totalidade. Com o intuito de atender a demanda de “deficientes” e pessoas de idade avançada, seria interessante a locomoção gratuita pelo sítio, seja com o serviço de trenzinhos ou com a implantação de um teleférico. A política de privilegiar os moradores da própria cidade como guias deve ser incentivada, mas não pode parar por aí. Faz-se necessário que os locais estejam abertos e que o sítio se apresente como um pólo turístico diversificado, rentável tanto para os comerciantes locais, quanto no auxílio às aulas/visitação.
O bairro do Recife Antigo não se encontra em melhor situação. Sítio histórico e patrimônio cultural da Cidade, ele assinala o convívio conflitivo entre o novo e o velho, o moderno e o antigo, uso e desuso. A política exercida pela Prefeitura em tentar deslanchar de vez esta ilha histórica como pólo turístico e estender seu uso para além dos quatros dias carnavalescos revelam-se em cada rua, esquina e, sobretudo, prédios e sobrados que, utilizados para diversos fins, revelam tratamento diferenciado e um complexo jogo de interesses.
São muitas as ruas que se configuram como canteiros de obras faraônicas e as restaurações são intermináveis. Informações sobre os recursos públicos empreendidos e as placas informativas estão em letras quase ilegíveis, grafadas em enferrujada sinalizações presas nas calçadas, também em estado deplorável. A total ausência de banheiros químicos reforça o aspecto de terreno baldio. Pessoas com necessidades especiais e de idade avançada, sobretudo se não tiver automóvel, não transitam pelas ruas do Recife Antigo.
A Prefeitura da Cidade do Recife deveria implementar um sistema de transporte fluvial, suscitar novos olhares, curiosidades.  Faz-se necessário que esses espaços fujam do simples restauro, que sejam reinventados e utilizados em toda a sua totalidade em prol da população do Recife e da sua educação, ambos privados quando da construção de obra-pra-turista-ver. Que sejam dinâmicos e se transformem em museus vivos de novos laços, atendendo as demandas sócio-culturais, ao invés da institucionalizada política de pão e circo, e, principalmente, que não se configure o reflexo do museu morto que é o Recife Antigo, lúgubre e estanque.
BIBLIOGRAFIA

FREYRE, Gilberto. O Recife, sim!: recife, não!. São Paulo: Arquimedes, 1967. 100p.
MELLO, José Antônio Gonsalves. Tempo dos Flamengos: influência da ocupação holandesa na vida e na cultura do norte do Brasil.  4. ed. Rio de Janeiro: Topbooks, 2010. 308 p. il.
NEVES, Eduardo Góes. Os índios antes de Cabral: arqueologia e história no Brasil. p. 173. In: LUIS, Aracy Lopes da Silva; GRUPIONI, Donizete Benzi (Org.). A temática indígena na escola: novos subsídios para professores do 1º e 2º graus. Brasília: MEC: MARI: UNESCO, 1995. 575p.
REZENDE, Antonio Paulo. O Recife: histórias de uma cidade. 2. ed. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2005. 207 p. il. (Coleção Malungo; v.6)
SILVA, Kalina Vanderlei. Nas solidões vastas e assustadoras: a conquista do sertão de Pernambuco pelas vilas açucareiras nos séculos XVII e XVIII. Recife: Cepe, 2010. 269 p. il.
 

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Só Bom Jesus mesmo pro Recife Antigo
Neste domingo (27) fotografei alguns pontos estratégicos do Recife Antigo para ilustrar o meu trabalho. Sítio histórico e patrimônio cultural da Cidade, ele assinala o convívio conflitivo entre o novo e o velho, o moderno e o antigo, uso e desuso. A política exercida pela Prefeitura em tentar deslanchar de vez esta ilha histórica como pólo turístico e estender seu uso para além dos quatros dias carnavalescos revelam-se em cada rua, esquina e, sobretudo, prédios e sobrados que, utilizados para diversos fins, revelam tratamento diferenciado e um complexo jogo de interesses.
Estátua do cantor e compositor Chico Science, na esquina da Rua da Moeda com a Rua Mariz e Barros. Foto: autor
A política de patrimonialização, embora hoje mais abrangente, ainda guarda resquícios delicados quanto à conservação do patrimônio dito "pedra e cal" que, no Brasil, entre fins do século XIX e início do século XX, residia sobre a legitimação da história-memória de uma elite. Contemporaneamente, sob o discurso do direito que as gerações futuras detêm na visibilidade de sua história, a ação reside, geralmente, no restauro das fachadas e dos aspectos originas da arquitetura dos prédios selecionados. No caso do Recife Antigo é curioso notar que essas obras são intermináveis, já fazem parte do cotidiano, mas não de seu cartão postal. Não desconheço os problemas técnicos e de que se trata de um processo longo, mas alguns estão prestes a fazer aniversário de dez aninhos. Isso é coisa que se sobressai mesmo àqueles que não o frequentam assiduamente. A transparência dos gastos públicos está em letras quase ilegíveis, grafadas em enferrujada placas presas nas calçadas, também em estado deplorável.

Rua Vigário Tenório, esquina com a Downton. Foto: autor
De segunda a sexta-feira local administrativo, nos fins de semana reveste-se da "multiculturalidade", que tanto a Prefeitura difunde. O som dos diversos maracatus que ali ensaiam ressoa nas ruas adjacentes, e do Marco Zero pode-se brincar de regente das batucadas. Aqui se tem a visão verde-azulada de nosso litoral, do parque das esculturas do artista plástico Francisco Brennand e de sua Torre de Cristal. Marco Zero também do abandono e da falta de utilização adequada de espaços; se podemos falar em janela temporal para o vislumbre da passagem de colônia de pescadores a centro administrativo do Brasil-Holandês, ela se encontra bem sedimentada sob as novas construções.
Quando pensamos a respeito dessas novas reformas - me refiro as dos armazéns - inúmeras perguntas emergem, sobretudo "a quem se dirige esses investimentos?" e "Porque só agora?". Faz-se necessário que esses espaços fujam do simples restauro, que sejam reinventados e utilizados em toda a sua totalidade em prol da população do Recife e da sua educação, ambos privados quando da construção de obra-pra-turista-ver. Que sejam dinâmicos e se transformem em museus vivos de novos laços, atendendo as demandas sócio-culturais, ao invés da institucionalizada política de pão e circo, e, principalmente, que não se configure o reflexo do museu morto que é o Recife Antigo, lúgubre e estanque.

Andamento das obras do Cais do Apolo. Foto: autor

João Paulo Nascimento de Lucena

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Do mito à tragédia

"A tragédia nasceu do culto a Dioniso", assinala Brandão (1984, p. 9). Segundo a antiga mitologia grega, houve dois Dioniso; o primeiro, filho de Zeus e Perséfone, chamava-se Zagreu, era favorito de seu pai e dos homens e estava destinado a sucedê-lo no governo do mundo. No entanto, para protegê-lo do ciúme de Hera, Zeus o deixou sob os cuidados de Apolo e dos Curetes, que criaram Dioniso nas florestas do monte Parnaso. Mesmo assim, Hera enviou os Titãs para que o capturassem. Apesar de várias metamorfoses tentadas por Dioniso, os Titãs o surpreenderam sob a forma de touro e o devoraram. Palas Atena conseguiu salvar-lhe o coração, que ainda palpitava. Há variantes desse mito que assinalam que a princesa tebana Sêmele engoliu esse coração, tornando-se grávida, ou, que o próprio Zeus o engolira antes de fecundar a princesa. De qualquer forma, o resultado é o mesmo: da união nasceu Iaco, nome místico de Dioniso, Zagreu ou Baco. (BRANDÃO, 1984, p. 9)

Baco
Michelangelo

Em seu livro sobre mitologia, Bulfinch (2002, p. 196) continua a estória dizendo-nos que, Hera, querendo vingar-se "assumiu a forma da velha ama daquela, Béroe, e insinuou-lhe dúvidas no espírito, quanto ao fato de ser o próprio Zeus o seu amante"; persuadida, Sêmele pede a Zeus que apareça em toda a sua imortalidade, este, que havia jurado pelo rio Estige jamais contrariar-lhe um desejo, aparece com suas vestes e seus raios; infeliz destino, a presença de Zeus em sua plenitude acaba por incendiar o palácio, carbonizando a princesa. Segundo Brandão (1984, p. 10), "Zeus recolheu do ventre da amada o fruto inacabado de seus amores e colocou-o em sua coxa, até que se completasse a gestação normal". Depois de nascido, Dioniso fora entregue aos cuidados das Ninfas e dos Sátiros do monte Nisa, onde descobrira o novo néctar; o vinho.
A interpretação que me importa acerca desse mito para o presente texto é assinalar a partilha do caráter ambíguo que há entre o vinho e as pessoas, numa tensão com a forma pela qual a pólis tentava regulamentar a sua organização sócio-política. Da felicidade à infelicidade, do homem comum (“ánthropos”) àquele integrado com Dioniso (homo dionisyacus), capaz de tornar-se um herói (“anér”) – aquele que ultrapassa o “métron”, a medida de cada um (o limite comum de todos os homens). Pois, “tendo ultrapassado o métron, o anér é, [...] “hypocrités”, quer dizer, aquele que responde em êxtase e entusiasmo, isto é, o ATOR, um outro”. (BRANDÃO, 1984, p. 11)
E “essa ultrapassagem é uma “désmesure” (desmedida), uma “hybris”, isto é, uma violência feita a si próprio e aos deuses imortais, o que provoca “némesis”, o ciúme divino: o anér, o ator, o herói, torna-se êmulo dos deuses”.[1] (BRANDÃO, 1984, p. 11)
Essa constante, ventura/desventura, irá marca todo o enredo da tragédia em Sófocles. Embora suas personagens não estejam imersas nos delírios do néctar de Dioniso, elas expandem os limites da ação humana para além do métron, mesmo que nessa empreitada recaia sobre eles “até”, cegueira da razão, a punição divina por tal ato. Assim sucedera ao herói grego Ájax, que se creia ajudado pela deusa Atenéia, quando esta, na verdade, ajudando Odysseus, inimigo e ao mesmo tempo admirador daquele, escurecera a visão de Ájax “por ter levado, longe demais, o seu furor” (SÓFOCLES, [199?], 113 p.), tal como se vangloria a deusa ao informar o herói Odysseus:

Fui eu! Afastei-o de uma alegria que já não tinha remédio. Fui eu que sumi os seus olhos no desvario e os fiz voltarem-se contra o rebanho, contra as reses dos despojos, que ainda não se haviam repartido, e que os vossos boieiros mantinham misturadas. [...] Apresso, então, os delirantes ataques da sua loucura; empurro-o para dentro de um limitado cerco de males. Quando cessa, finalmente, a matança, ata com cordas os bois e outros animais do rebanho que ainda não haviam morrido, e arrasta-os para a sua tenda, convencido de ter caçado, não bois, mas homens. (Ibid., p. 65.) [2]

Mas qual a relação da mistificação do vinho e seus efeitos com a peça do poeta grego Sófocles e com as outras de um modo geral?
Os adeptos de Dioniso disfarçavam-se em sátiros e, nas cerimônias, se embriagavam e começavam a cantar e dançar freneticamente até cair desfalecidos, neste sentido, "eram concebidos pela imaginação popular como "homens-bodes" (BRANDÃO, 1984, p. 10). Ora, este mesmo autor nos lembra que a formação da palavra "tragodía" é composta pelos equivalentes gregos "trágos", que significa bode, mais, "oide", que expressa canto, mais o sufixo "ía", ia, constituindo a gênese do latim tragoedia e da nossa tragédia. Brandão (1984, p. 10) ainda ressalta que a origem da palavra pode ser derivada do sacrifício de um bode a Dioniso,

"bode sagrado", que era o próprio deus, no início de suas festas, pois, consoante uma lenda muito difundida, uma das últimas metamorfoses de Baco, para fugir dos Titãs, teria sido em bode, que acabou também sendo devorado pelos filhos [...]

Neste sentido, “a tragédia só se realiza quando o métron é ultrapassado”. (Ibid., p. 12). Ela não reside nos extremos, da mudança repentina dos bons aos maus, ou vice-versa, mas daquele que cometera um “harmatían”, um “erro”, e, por causa disso, passa da boa à má fortuna[3]. A peça trágica deve ter a capacidade de suscitar, simultaneamente, a purgação própria ao terror e a piedade que a performance imita da realidade e lhe confere emoções ímpar daquelas do “real”.
O fundador da tragédia grega foi Ésquilo (525-456 a. C.), cujas personagens se veem imersas em culpa e castigo e onde os deuses atuam diretamente, de forma a sempre empurrar os heróis para o inevitável abismo da maneira mais rápida possível. O que difere das peças de Sófocles (496-406 a. C.), em que a representação do homem – ou, tratando-se de Antígona, da mulher – digladia com o fluir do seu destino[4], com os meios, e os deuses interferem de maneira “indireta” por meio dos prognósticos do Oráculo de Delfos[5], ou, do velho vidente tebano, Tirésias[6]. Um bom exemplo disso encontra-se no início da peça Antígona: quando do discurso de sua irmã, Ismene, na tentativa de impedi-la de sepultar seu irmão, Etéocles, Antígona a ela responde:

Ainda que me pudesses ajudar, agora, já não to pediria. A tua ajuda não seria do meu agrado. Enfim, reflecte sobre as tuas ideias. Eu vou enterrá-lo e, depois, que a morte venha. Permanecerei, como amigo, junto do bom amigo; tranquila por haver cometido um delito piedoso. Mais tempo agradará a minha conduta aos debaixo da terra do que aos de aqui, pois o meu descanso entre eles durará eternamente. Quanto a ti, pensando como pensas, desonras os que honram os deuses. (SÓFOCLES, [199?], p. 13, grifo nosso)

Na passagem citada, Antígona não somente demonstra essa luta contra o desenrolar do inevitável[7], como também a sua fúria frente ao que considera uma verdadeira transgressão da parte de Creonte para com os deuses e leis eternas. A ação de Antígona também defronta o restrito campo de exercício ao qual fora submetida à mulher na polis, como alerta Ismene:

[...] pensa que ignominioso fim nos espera, se violarmos o que está prescrito; se transgredirmos a vontade ou o poder dos que mandam. Não! Há que aceitar os factos: somos duas fracas mulheres incapazes de lutar contra homens, contra os poderosos que ditam as leis, e temos de cumpri-las – estas e, possìvelmente, outras mais dolorosas ainda. (Ibid., p. 13,)

Ora, pode-se supor que a tragédia se apresenta para além de seus meros esquemas artísticos, quer dizer, ela é uma ferramenta política de regulamentação social. Não é a toa que em sua gênese tenha ela nascido com os cultos dionisíacos, pois, se a integração do homem com o seu deus Dioniso fora amplamente censurada é porque toda ela se desenrola com muito vinho, muita música e bacanais, que juntos, por vezes, acabava em confusão.
Portanto, que interpretação caberia ao estado grego fazer de tal culto senão aquela de que o homem, sob o fervor de tais celebrações, estaria propenso a transgredir as normas e promover a desordem. A pólis teme as ações do homo dionysiacus.
Daí porque o momento eufórico vivido pela pólis Atenas no período dito “clássico”, entre os séculos V e IV, sobretudo no governo de Péricles, que é o da difusão através dos “discurso-micenas” da representação do ideal a ser seguido: o comportamento do hypocrité nada mais é do que o almejado pela pólis para com a sua população.[8]
Neste sentido, “chamamos de trágica à peça cujo conteúdo é trágico e não necessariamente o fecho”. (BRANDÃO, 1984, p.15)


[1] A esse respeito, André Bonnard (19, p. 9) assinala que: “O herói da tragédia é o aviador ousado que se propõe forçar o muro do som. Quase sempre, esmaga-se na tentativa. [...] No entanto, toda a tragédia traduz e torna mais firme a aspiração do homem a ultrapassar-se num acto de coragem inaudito, de ganhar uma nova medida da sua grandeza, frente aos obstáculos, frente ao desconhecido que ele encontra no mundo e na sociedade do seu tempo.
[2] O “até” consiste em que toda a ação que fizer voltar-se-á contra si próprio. Isto será evidenciado mais tarde, quando Ájax irá se recuperar de seu desvario, e, vergonhoso de seus atos reconhecerá perante seus marinheiros: “Não vedes o valente, o de coração esforçado, o que nunca tremeu entre os mortíferos golpes de um combate? Foi o meu braço um algoz, mas contra animais que não fogem. Ai de mim! Sou o escárnio de todos, pois fui eu próprio que me cobri de ignomínia”. (Ibid., p. 76)
[3] Mais dirá Antígona a Creonte: Não foi Zeus que ditou esse decreto; nem Dice, companheira dos deuses subterrâneos, estabeleceu tais leis para os homens. E não creio que os teus decretos tenham tanto poder que permitam a alguém saltar por cima das leis, não escritas, mas imutáveis, dos deuses; a sua vigência não é, nem de hoje nem de ontem, mas de sempre, e ninguém sabe como e quando apareceram. [...] E, se morrer agora, lucrarei com isso; pois quem, como eu, vive entre tantos males, ganha com a morte. Só encaro, como desgraça, ficar insepulto um filho de minha mãe e eu consentir: isso, sim!, é que me seria doloroso. Pode parecer-te que procedi como uma louca, mas é quase a um louco que dou conta da minha loucura. (SÓFOCLES, [199?], p. 24)
[4]  Buscamos a ideia de que a moira (destino inevitável) nada mais é do que uma metáfora em Diakov (1976, p. 189). Embora se trate de um livro no qual o discurso que perpassa os acontecimentos narrados guarde laços com uma historiografia marxista que vê na dialética essa tensão e evolução histórica, cabe assinalar uma das poucas passagens destinadas à análise da tragédia em Sófocles, veja-se o trecho: “o tema dominante das suas tragédias é o conflito entre o indivíduo e a sociedade, a perda inevitável daquele que transgride a lei social”.
[5] “Não longe de Atenas existe o Monte Parnaso. (Nele) [...] havia uma cidade chamada Delfos. (Nela) [...] existia no solo uma fenda donde saía fumaça [...]. Os gregos acreditavam que [...] era o sopro da respiração do deus Apolo. Perto da fenda uma sacerdotisa [...] ficava sentada num tamborete de três pernas [...] para respirar aquela fumaça. Quando isso fazia, ela ficava fora de si [...]; então as pessoas interessadas faziam-lhe perguntas e ela em resposta resmungava umas coisas estranhas, cuja significação era explicada por um sacerdote. Aquele lugar chamava-se “Oráculo de Delfos”. (HILLYER, 1962, p. 45, grifo nosso)
[6] “Tirésias, em sua juventude, vira, por acaso, Minerva se banhando. Furiosa, a deusa privou-o da visão, porém mais tarde, abrandando-se, concedeu-lhe, como compensação, o conhecimento dos acontecimentos futuros”. (BULFINCH, 1984, p. 221)
[7] Referimo-nos a hereditariedade da maldição, que falaremos na parte 2.2.
[8] Dessa mesma opinião compartilha André Bonnard: “No plano da tragédia, a missão própria do poeta é ser o educador dos homens livres. A tragédia, em princípio, é um gênero didático”. (Id., 19, p. 8)

 João Paulo Nascimento de Lucena
Bibliografia



BRANDÃO, Junito de Souza. Teatro grego: tragédia e comédia. Petrópolis: Vozes, 1984. 116 p.
BONNARD, André. Civilização Grega II. Tradução: José Saramago. Lisboa: Edições 70, 2007. pp. 7-40
BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia: a idade da fábula... 26. ed. Tradução: David Jardim Júnior. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002. 417 p. il.
HILLYER, V. M. Pequena história do mundo para crianças. Tradução e adaptação: Godofredo Rangel. 5. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1962. il. 285 p.
SÓFOCLES. Antígona. Tradução: Donaldo Schüler. Porto Alegre: L&PM, 2011. 112 p.
SÓFOCLES. Antígona; Ájax; Édipo Rei. Versão portuguesa de António Manuel Couto Viana. [S.I.]: Verbo,[199-?]. 181 p.

sábado, 12 de novembro de 2011

Relatório V Encontro Cultura e Memória: História, Narrativa, Patrimônio 28 a 30 de setembro de 2011, UFPE, Recife.


O V Encontro Cultura e Memória: História, Narrativa, Patrimônio, realizado na Universidade Federal de Pernambuco entre os dias 28 a 30 de setembro foi um evento organizado pelos pós-graduandos da linha de pesquisa “Cultura e Memória do Norte e Nordeste”, em parceira com o departamento de história, com os professores e os graduandos.
Momento oportuno não somente para a divulgação de pesquisas, o espaço configurou-se em um fecundo campo de troca de experiências e de aproximação entre professores e aprendizes. Diálogo proporcionado por palestras, mesas redondas, mini-cursos e gt’s, nele busquei compreender um “norte comum” na produção da pesquisa histórica, da relação entre o historiador e suas fontes, e como, guiado a priori por suas questões, ele seleciona, (re)significa e constrói seu textus (do latim, tecido).
Ainda que tenha me divido entre monitor e ouvinte, mesmo assim pude prestigiar a mesa redonda “Cultura e Contemporaneidade: O Lugar da Inventividade e da Leveza na Pesquisa Histórica”, ministrada pelo professor do departamento de história, Antônio Paulo Rezende, juntamente com a participação de seus orientandos de pós-graduação Daniel de Souza Leão Vieira, Natália de Barros e Joana D’arc.
Envolvido numa dinâmica de imaginários e paisagens a partir da leitura de Ítalo Calvino, o texto de abertura da mesa, do professor Daniel Vieira, trazia questões sobre o encadeamento da intertextualidade através do uso da imagem. Num segundo momento, Natália Barros nos presenteou com um belíssimo conto, cujo personagem principal trata-se do próprio Rezende e de suas “aventuras” – e por que não dizer? – figura representante de uma vanguarda quanto à abordagem histórica. Dando prosseguimento, Joana D’arc elucidava da relação do fazer e contar artesanato-história.
 Concluía-se a mesa com um texto-problema, do professor Antonio Paulo Rezende, que perguntava do lugar da leveza na narrativa histórica e alertava para o desenvolvimento de um câncer no interior da própria sociedade, que gradativamente a corrói e faz emergir a flor da pele um contínuo “mal-estar”, resultado de pouca empatia, de pouca humanização.
Participei também do mini-curso “[Re]pensando o Ofício do Historiador”, ministrado pela professora Grazielle Rodrigues em co-autoria com Roberta Duarte, no qual se discutiu da relação entre o historiador e as suas fontes e da constituição desse corpo documental, que pode ser tanto material – como jornais, fotografias e documentos –, quanto imaterial – como o relato da experiência de um agente social e a memória individual ou coletiva –, assinalando que o passado se constrói – ou se restaura - no presente.

João Paulo Nascimento de Lucena

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Da Astúcia de Ulisses


A Odisséia é um conjunto de poemas épicos escritos provavelmente no fim do século VIII a.C., atribuídos ao poeta grego Homero, que descreve o retorno do herói grego Ulisses à Ítaca, após a sua participação na lendária Guerra de Tróia, que durou cerca de 10 anos. O que deveria ser uma tranquila viagem a sua casa se transformou numa nova aventura repleta de sucessivos desafios, em que figuras míticas, emoções e desejos humanos se misturam e criam um ambiente único, no qual ciclopes, deuses do Olimpo, ninfas, homens e diversas histórias se interligam e acentuam mudanças, porém não linear, mas transitória, como um trirreme grego a navegar no Mediterrâneo, guardando consigo experiências singulares, nos embarques e desembarques da vida. E é aí que entra um blog do qual gosto muito de ler.
O próprio nome já diz muito a seu respeito: "A Astúcia de Ullisses". Escrito de modo ininterrupto pelo professor de história da UFPE, Antonio Paulo Rezende, o blog abrange inúmeros temas. Não há uma seletividade quanto aos assuntos, mas uma linha lógica que perpassa todas as suas postagens. Temas ditos acadêmicos se misturam com os do cotidiano, política, história, capitalismo, imaginário, música, futebol, literatura, afetividade, memória, cultura, filmes, cidade e etc., tudo está num auto sistema de desorganização/organização, acentuando a ideia de Edgar Morin. Na Odisséia, o mesmo mar que pode levar Ulisses a sua amada, é, também, o obstáculo de seu regresso. Marcado pela ambiguidade, ele é imensidão, labirinto móvel: não se pode deixar à deriva. É necessário experiência e determinação, e onde melhor lugar do que o mar?
Em Yi-fu Tuan (1983) busco a ideia de que lugar começa como espaço indiferenciado, quer dizer, à medida que nos familiarizamos com um espaço, este, por sua vez, se torna lugar. Essa justaposição é mediada por nossa experiência, pois "a partir da segurança e estabilidade do lugar estamos cientes da amplitidão, da liberdade e da ameaça do espaço e vice-versa" (TUAN, 1983, 6 p.). Para ele experiências são diferentes maneiras através das quais uma pessoa conhece e constrói a realidade (1983).
Nesse sentido, Ulisses é o seu próprio norte comum. Sua astúcia reside nesse diálogo com a incerteza. Sabe que alguns deuses, como Poseidon, conspiram contra ele. O blog, também, tem consciência da imprevisibilidade do futuro, das armadilhas do acaso e dos deslocamentos que podem proporcionar. Embora não mais acredite na Conspiração, ou nos deuses, sereias, ninfas, ciclopes, tem consciência dos desafios que lhe são impostos, e da insígnia que lhe atribuem como produtor de não-história.
Acredito que a epopéia de Homero está para a Sinfonia n.9 http://www.youtube.com/watch?v=YAOTCtW9v0MHYPERLINK "http://www.youtube.com/watch?v=YAOTCtW9v0M&feature=relatedassim"&HYPERLINK "http://www.youtube.com/watch?v=YAOTCtW9v0M&feature=relatedassim"feature=relatedassim assim como o blog "A Astúcia de Ullises" está para Concerto in A Minor for Four Pianos and Strings, BMV 1065, de Bach http://www.youtube.com/watch?v=zg_IioVOnKY. Em ambas as músicas são assinaladas em seu decurso a tensão entre mudança e permanência, um tronco comum do qual se desprende uma bela e emaranhada ramificação.

 João Paulo Nascimento de Lucena
Bibliografia

TUAN, Yi-Fu. Espaço e lugar: a perspectiva da experiência. Tradução: Lívia de Oliveira. São Paulo: DIFEL, 1983. 250 p.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Palvra-problema e não uma palavra-solução

O Grupo de Estudos sobre a Epistemologia da Complexidade, atualmente formado por alunos dos cursos de graduação em psicologia, história, gastronomia e ciências sociais, reúne-se semanalmente as quintas-feiras - exceto a segunda quinta-feira de cada mês - das 9 às 11 horas, no Núcleo Ariano Suassuna de Estudos Brasileiros, sob a orientação da professora Maria Aparecida Lopes Nogueira.
Movida pela tensão entre "dar conta das articulações entre os campos disciplinares" (MORIN, 2011, p. 6) e do reconhecimento da incompletude de qualquer conhecimento, a complexidade revela-se como a busca de um amadurecimento do olhar científico, que almeja promover deslocamentos teóricos/epistemológicos. Neste sentido, derivado do latim complexus (o que é tecido junto), o pensamento complexo opera pelo processo de auto-organização, que consiste na conjunção entre a microdimensão e a macrodimensão, isto é, pelo diálogo antagônico complementar entre o uno e o múltiplo (unitat multiplex).
A complexidade engloba em si a incerteza, a ordem/desordem e o reconhecimento da impossibilidade de uma onisciência, pois ela "integra o mais possível os modos simplificadores de pensar, mas recusa as consequências mutiladoras, redutoras, unidimensionais e finalmente ofuscantes de uma simplificação que se considera reflexo do que há de real na realidade". (Idem, p. 6)
Lançando mão das ideias do transdiciplinar francês Edgar Morin, essas reuniões têm proporcionado instigantes discussões entre seus integrantes, na medida em que os conhecimentos de suas áreas de estudos dialogam entre si e com as experiências de seus integrantes, possibilitando ricos instantes de reflexão. Não se trata somente de leituras, esse grupo heterogêneo procura por em prática essa contextualização multidimensional, uma vez que “o desenvolvimento da inteligência é inseparável do mundo da afetividade, isto é, da curiosidade, da paixão, que, por sua vez, são a mola da pesquisa filosófica ou científica” (MORIN, 2002, p. 20).
Assumir que a educação do futuro deve ter como prioridade ensinar a 'ética da compreensão planetária', como reitera o quarto saber, implica entender a ética não como um conjunto de proposições abstratas, mas como atitude deliberada de todos os que acreditam, como Edgar Morin, que ainda é possível que sociedades democráticas abertas se solidarizem, mesmo que o caminho seja árduo e, por vezes, desanimador. Esses sete saberes, rubricados pelas posturas da complexidade, deverão estimular os educadores brasileiros a saírem do armário e irem à luta para garantirem às futuras gerações um mundo com mais beleza e sustentabilidade.(CARVALHO, Edgar de Assis, 2000 apud MORIN, 2002)
 

João Paulo Nascimento de Lucena

Bibliografia
1)   MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. 4. ed. Porto Alegre: Sulina, 2011. 120 p.
2) MORIN, Edgar. Os sete saberes necessário à educação do futuro. Revisão técnica: Edgar de Assis Carvalho. 5. ed. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2002. 118 p.