sexta-feira, 4 de junho de 2010

A Memória como idioma de larvas incendiadas

A memória é constantemente inventada e reinventada, construída e reconstruída a partir de laços estabelecidos com os acontecimentos, que mudam constantemente, delineando nessas mudanças cartografias sempre dispostas a ampliar seus significados. A memória é, portanto, reconstrução do passado; um olhar para o passado a partir do hoje, por isso é cravada de subjetividade.
Na memória superpõem-se presente, passado e futura; flui o Kairos, tempo mítico, a-causal. Possui margens, amarras e limites tênues; é solta, atrela-se ao desejo. Atravessada por contradições, pertence ao reino da desrazão, explicitado num amplo leque de marcas que teimam em conferir especificidades aos indivíduos e aos grupos. Fomentada por uma lógica desconhecida, escapa ao controle, insinua-se, esconde-se. Ora deixa-se desvelar por meio da vontade do indivíduo, ora é desencadeada por estímulos desconhecidos.
A obstinada conservação de práticas, vivências, experiências que forjam ricos repertórios de saberes, cuja transmissão ocorre – ainda – por meio da oralidade, constitui um forte indício para que se compreenda as histórias de grupos, que têm se mantido vivos e grávidos de futuro; pois tais repertórios forjam sentidos que viabilizam suas existências. Por isso seus integrantes estarão sempre mobilizados para narrar, contar e recontar ad infinitum suas memórias; nelas subjazem a força de um simbolismo que – misteriosamente, mesmo nesses tempos atuais, quando é difícil lutar contra a velocidade e os apelos à mudança  - é capaz de manter e transmitir práxis cognitivas que fomentam a tolerância, a construção de laços sociais mais próximos e a solidariedade entre os povos.
Embora a Tradição se queira perene, absoluta, nada é definitivo. Tudo o que morreu, continua e pode voltar, pois a recursividade é uma característica geral da Cultura entendida como Tradição. Os conteúdos retornados da memória expressam mesmidade e outridade; apresentam pequenas modificações, rupturas, podem acrescentar ou retirar algo. Trata-se de um processo: mudar para permanecer. Nesse sentido, a memória pode ser entendida como o centro da Tradição, que, por sua vez, não se distancia do que lhe é contrário.
A memória é ativa. Aprender é lembrar, lembrar é aprender. Ela pode remontar a épocas distantes, pois, de acordo o mito narrado por Platão, “todas as almas têm sede de saber e já a tinham nas vidas pregressas. Acontece que os deuses, cruéis em sua sabedoria, não se agradavam de ver que se desse um copo d’água para a alma sedenta e sôfrega antes de ela fazer um sacrifício, ao menos o sacrifício da espera. O conhecimento exige a purificação da paciência. As almas deveriam esperar um tanto para que o desejo se interiorizasse e se espiritualizasse dentro delas; só assim, o desejo se transformaria em conhecimento, pois entre um e outro ocorreria o tempo necessário à memória. A água oferecida pelos deuses era tirada de um rio chamado Lethe, rio do esquecimento. Se as almas, arrastadas pela sede do desejo sem freio, bebessem a água do Lethe, sem a pausa do sacrifício, ao invés de aprender, cairiam na letargia, que é um estado de sonolência, de embrutecimento, de inconsciência. Voltariam aos seus instintos de brutos e, saciados e entorpecidos muito rapidamente, seriam incapazes de dar o salto que leva ao conhecimento através da memória. Mas aquelas almas que esperassem e não tragassem sôfregas a água do Lethe, alcançariam o não-esquecimento, o des-ocultamento”.
Os guardiões da memória dos grupos – aqueles que bebem da água do Lethe com parcimônia - expressam a idéia de Tradição como a soma de saberes acumulados pela coletividade, a partir de acontecimentos e princípios fundadores, uma visão de mundo e forma específica de presença no mundo. A Tradição existe no presente, por isso constitui-se na razão de ser e existir de seus integrantes. Ao escolhido, aquele que detém o conhecimento último, é revelada a ordem do mundo e dos homens. Sua autoridade é adquirida progressivamente na vida, na medida de suas descobertas e revelações, tendo como resultante a intervenção legítima na ordem do grupo.
O escolhido tem a missão de garantir a conservação e memorização do grupo e de permitir-lhe ser o que já foi. Esse duplo enfoque, segundo Balandier, permite que a Tradição se insira “em uma história onde o passado se prolonga no presente, onde o presente chama o passado; história desconcertante, porque negadora do seu próprio movimento e refratária à novidade. Quer exprimir na permanência a verdade, a da ordem do mundo desde sua origem. [...] Neste sentido, a recusa da modernidade é primeiro a recusa do novo, do movimento e do efêmero, considerados os assassinos da tradição, dela retirando qualquer chance de renascimento” (1997:93).
Mas ordem e desordem são indissociáveis. Assim, o inverso da ordem não é seu desmantelamento; ao contrário, pode servir para reforçá-la ou ser um de seus elementos constitutivos sob um novo aspecto. Faz-se, então, a ordem com a desordem, o sacrifício faz a vida com a morte.
Ressalta-se o fato de que todas as sociedades reservam um lugar para a desordem, mesmo temendo-a; compõem-se, de alguma forma, com ela, o que lhes possibilita transformá-la em fator de ordem, em instrumento de um trabalho com efeitos positivos. A passagem do tempo e o movimento das forças sociais traçam, incessantemente, os caminhos da desordem. Esta é percebida como uma energia ainda selvagem que convém expulsar realmente (utilizando uma vítima expiatória) e imaginariamente, e que é preciso domesticar ou converter fazendo-a trabalhar com finalidades positivas. Tal domesticação ou conversão se efetiva através de ritualizações, que imprimem continuidade em vez do caos e acenam para o desejo da ordem.
Percorrer incessantemente o trajeto que oscila entre o antigo e o novo, o outro e o mesmo, o real e o imaginário, retroalimenta uma memória que acena para novas maneiras de vivenciar, reinventar, ressignificar discursos e práticas. Um potencial imaginativo, misto de permanência e ruptura, que sempre provoca e renova o espanto de todos, na medida que fornece subsídios para a compreensão mais ampla da condição humana.

Maria Aparecida Lopes Nogueira
(PPGA-UFPE)